segunda-feira, 8 de junho de 2020


TRIBUTO AO MEU GURÚ
Márcio Araújo (*)

Retornei à Paraíba em 1988, e como sempre, procurei me ater do cenário político local, embora resistisse à idéia de participar como militante.
Num determinado ano, teve um evento de caráter político partidário e eu vi Ronald Queiroz na TV Cabo Branco.
Lembro inclusive que no gerador de caracteres do monitor, apareceu ele como empresário.
Com o passar do tempo, tomei conhecimento de suas fortes ligações de amizade com Humberto Lucena e Antonio Mariz no campo político, assim como na igreja católica, mais precisamente com Dom José Maria Pires.
Mas, foi somente em 1993 - quando de sua nomeação para superintendente regional do INCRA, cargo que lutávamos para emplacar um servidor de carreira, é que tive a rara oportunidade de minha vida, em poder conviver mais amiúdo com aquela figura humana.
Dias antes da posse, conheci Ronald pessoalmente. Foi na sede do INCRA, onde num curto espaço de tempo, pude observar o risco que corremos em não poder contar com o concurso daquele homem público de primeira categoria.
Foi uma conversa brilhante: ele com sua sisudez, contrastando com a esplêndida capacidade de ouvir, além de um grande ímpeto para os temas ligados aos grandes problemas sociais.
Conviver com Ronald era antes de tudo, um exercício primoroso, onde ele, com sua maestria, nos conduzia a uma adorável transcendência.
O tempo, naqueles momentos não tinha valor nenhum, pois seus valores, mesmo que sendo fruto de uma longa e sábia experiência de vida, apenas servia apenas como ele costumava dizer, sorrindo: lembrar-nos dos anos da nossa idade.
Sua posse foi uma prova do prestigio que era possuidor em todos os segmentos da sociedade formadora de opinião nesta Paraíba.
Nunca a sede do INCRA na Paraíba recebera personagens tão distintas, que ia do Juiz Federal Alexandre de Luna Freire, passando pelo José Costa, do ex-governador Pedro Gondim, Dom José Maria Pires, professor Ademir Melo dentre outros.
Posso afirmar com toda experiência dos meus trinta e quatro anos de dedicação à causa da Reforma Agrária, inclusive na condição de ex- gestor, e sem o mínimo temor de cometer injustiças: Ronald Queiroz foi o melhor superintendente que o INCRA da Paraíba já teve.
Embora paradoxal àqueles anos turbulentos pós-impeachment do presidente Collor de Melo, sua gestão sofreu da inércia que se constituiu o governo do presidente Itamar Franco no tocante a reforma agrária, quando a exemplo do que aconteceu no Brasil inteiro, na Paraíba as metas de desapropriações de imóveis rurais e de assentamentos de famílias foram inexpressíveis, a gestão de Ronald teve um toque especial.
O professor Ronald, como costumavam se referir a maioria dos mais jovens que dele se aproximavam, geralmente para usufruírem de uma aula particular, sabia suscitar o debate profícuo em torno da reforma agrária, e quando provocado nos mais diversificados cenários, quer na academia –geralmente repleto de pesquisadores afeiçoados ao tema, quer perante a clientela em si, os movimentos sociais, o conjunto dos servidores do INCRA, enfim, soube como nenhum outro dirigente, enaltecer a causa pública.
Acho que estou a me desviar da idéia mestre que é de falar de Ronald Queiroz, que era desses seres humanos, iluminados, de uma sensibilidade a flor da pele.
Ronald nos dava aulas de nobreza do pensar todos os dias, em todos os contatos que mantínhamos.
Outro episódio que me veio à memória, foi quando da imissão de posse da fazenda SANTA CATARINA, no município de Monteiro.
Foi uma das primeiras grandes realizações de sua gestão: primeiro e o mais importante, pois aquela ação governamental se constituía na prática, num resgate histórico de quase um século de vida, cujos personagens em sua maioria, detinham idade superior a setenta anos de idade.
“Zabé da Loca” era uma dessas pessoas, cuja dimensão se agigantava pelo fato dela ser uma pessoa com forte conteúdo cultural. Uma reserva cultural, para ser mais entendível.
Maestrina de uma bandinha de pífanos, cuja formação incluía alguns dos seus filhos. Sua presença era requerida em caráter obrigatória em todas as reuniões sociais, tanto local, quanto em toda a região.
Essa solenidade serviu para que Ronald desse mais uma demonstração da sua sensibilidade, quando, ao ouvir as manifestações de Zabé da Loca, virou-se para nós e vaticinou: _essa mulher é um ser humano iluminado.
Essa mesma sensibilidade fez com que a alta direção do INCRA em Brasília, autorizasse a realização de um convênio com o PARA´IWA –coletivo de assessoria e documentação, cujo diretor, Durval Leal Filho, de tanto esmero na edição de um livro e um vídeo, “TERRA DE MORADA”, teve seus esforços contemplados com vários prêmios, inclusive no exterior.
Some-se também, o espírito solidário de Ronald, na forma como ele tratava suas amizades: como relíquias, tesouros humanos, e compartilhava-as sempre que a oportunidade se apresentava.
Graças a Ronald, tive a honra de conhecer pessoas magníficas, tais como: Emília Correia Lima, o arcebispo Dom José Maria Pires, o reitor Neroaldo Pontes, o ex-governador Pedro Gondim, dentre outros.
No campo institucional, fui apresentado ao presidente Marcos Lins, que inclusive a partir de então, a superintendência do INCRA na Paraíba passou a ser prestigiada.
Aprendi muito com Ronald. Sua morte transcende os limites dos sentimentos, e impõe nesse momento de reflexão do mais desesperador deles, a sensação de orfandade que a sua ausência nos impõe.
Seu desaparecimento não somente enlutou a sua família, mas também a todos os que de uma forma ou de outra, direta ou indiretamente conviveram com esse ser humano de inigualável leveza de espírito.
Amizade mesmo nascera após sua saída do INCRA. Minhas amizades nascem assim.
Quando na casa civil do Governo da Solidariedade, pude perceber que aquela função tava revestida de uma missão, de dotar a ação da casa civil num instrumento de transformação de gestão.
Ronald encarnava a determinação de Mariz de assim proceder enquanto agente de governo a serviço da inteligência do pensar ético da coisa pública.
Não faltaram as críticas oportunistas, daqueles que sempre se serviam das benesses do poder em forma de filantropia deturpada. Ronald soube como ninguém, despojado que era de vaidades, interpretar as diretrizes traçadas pelo amigo pessoal, governador Antonio Mariz.
Recordo-me lá no INCRA, quando Ronald coordenava o plano de governo, ele me falara que o então candidato eleito Antonio Mariz pedira-lhe para escolher entre a Casa Civil e o Planejamento, embora tivesse uma preferência para que ele assumisse a Casa Civil.
Hoje, ao escrever esse artigo, compreendo a dimensão inteligente daquela “preferência” de Mariz.
Os dias atuais, os fatos envolvendo a política nacional, os escândalos sucessivos, que denigrem e fragilizam as instituições falam por si só.
Ao contrário do que pensam algumas pessoas, a Paraíba não ficou a dever nada a Ronald, mas sim, alguns governantes, de ontem e de hoje. Esses sim, ficaram o que poderíamos afirmar: inadimplentes moralmente para com esse paraibano, sinônimo de caráter, dignidade e de competência.

(*) Servidor de carreira e ex-superintendente do INCRA PARAÍBA


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