TRIBUTO
AO MEU GURÚ
Márcio Araújo (*)
Retornei
à Paraíba em 1988, e como sempre, procurei me ater do cenário político local,
embora resistisse à idéia de participar como militante.
Num
determinado ano, teve um evento de caráter político partidário e eu vi Ronald
Queiroz na TV Cabo Branco.
Lembro
inclusive que no gerador de caracteres do monitor, apareceu ele como
empresário.
Com o
passar do tempo, tomei conhecimento de suas fortes ligações de amizade com
Humberto Lucena e Antonio Mariz no campo político, assim como na igreja
católica, mais precisamente com Dom José Maria Pires.
Mas, foi
somente em 1993 - quando de sua nomeação para superintendente regional do
INCRA, cargo que lutávamos para emplacar um servidor de carreira, é que tive a
rara oportunidade de minha vida, em poder conviver mais amiúdo com aquela
figura humana.
Dias
antes da posse, conheci Ronald pessoalmente. Foi na sede do INCRA, onde num
curto espaço de tempo, pude observar o risco que corremos em não poder contar
com o concurso daquele homem público de primeira categoria.
Foi uma
conversa brilhante: ele com sua sisudez, contrastando com a esplêndida
capacidade de ouvir, além de um grande ímpeto para os temas ligados aos grandes
problemas sociais.
Conviver
com Ronald era antes de tudo, um exercício primoroso, onde ele, com sua
maestria, nos conduzia a uma adorável transcendência.
O tempo,
naqueles momentos não tinha valor nenhum, pois seus valores, mesmo que sendo
fruto de uma longa e sábia experiência de vida, apenas servia apenas como ele costumava
dizer, sorrindo: lembrar-nos dos anos da nossa idade.
Sua posse
foi uma prova do prestigio que era possuidor em todos os segmentos da sociedade
formadora de opinião nesta Paraíba.
Nunca a
sede do INCRA na Paraíba recebera personagens tão distintas, que ia do Juiz
Federal Alexandre de Luna Freire, passando pelo José Costa, do ex-governador
Pedro Gondim, Dom José Maria Pires, professor Ademir Melo dentre outros.
Posso
afirmar com toda experiência dos meus trinta e quatro anos de dedicação à causa
da Reforma Agrária, inclusive na condição de ex- gestor, e sem o mínimo temor
de cometer injustiças: Ronald Queiroz foi o melhor superintendente que o INCRA
da Paraíba já teve.
Embora paradoxal
àqueles anos turbulentos pós-impeachment do presidente Collor de Melo, sua
gestão sofreu da inércia que se constituiu o governo do presidente Itamar
Franco no tocante a reforma agrária, quando a exemplo do que aconteceu no
Brasil inteiro, na Paraíba as metas de desapropriações de imóveis rurais e de
assentamentos de famílias foram inexpressíveis, a gestão de Ronald teve um
toque especial.
O
professor Ronald, como costumavam se referir a maioria dos mais jovens que dele
se aproximavam, geralmente para usufruírem de uma aula particular, sabia
suscitar o debate profícuo em torno da reforma agrária, e quando provocado nos
mais diversificados cenários, quer na academia –geralmente repleto de
pesquisadores afeiçoados ao tema, quer perante a clientela em si, os movimentos
sociais, o conjunto dos servidores do INCRA, enfim, soube como nenhum outro
dirigente, enaltecer a causa pública.
Acho que
estou a me desviar da idéia mestre que é de falar de Ronald Queiroz, que era
desses seres humanos, iluminados, de uma sensibilidade a flor da pele.
Ronald
nos dava aulas de nobreza do pensar todos os dias, em todos os contatos que
mantínhamos.
Outro
episódio que me veio à memória, foi quando da imissão de posse da fazenda SANTA
CATARINA, no município de Monteiro.
Foi
uma das primeiras grandes realizações de sua gestão: primeiro e o mais importante,
pois aquela ação governamental se constituía na prática, num resgate histórico
de quase um século de vida, cujos personagens em sua maioria, detinham idade
superior a setenta anos de idade.
“Zabé
da Loca” era uma dessas pessoas, cuja dimensão se agigantava pelo fato dela ser
uma pessoa com forte conteúdo cultural. Uma reserva cultural, para ser mais
entendível.
Maestrina
de uma bandinha de pífanos, cuja formação incluía alguns dos seus filhos. Sua
presença era requerida em caráter obrigatória em todas as reuniões sociais,
tanto local, quanto em toda a região.
Essa
solenidade serviu para que Ronald desse mais uma demonstração da sua
sensibilidade, quando, ao ouvir as manifestações de Zabé da Loca, virou-se para
nós e vaticinou: _essa mulher é um ser humano iluminado.
Essa
mesma sensibilidade fez com que a alta direção do INCRA em Brasília,
autorizasse a realização de um convênio com o PARA´IWA –coletivo de assessoria
e documentação, cujo diretor, Durval Leal Filho, de tanto esmero na edição de
um livro e um vídeo, “TERRA DE MORADA”, teve seus esforços contemplados com
vários prêmios, inclusive no exterior.
Some-se
também, o espírito solidário de Ronald, na forma como ele tratava suas amizades:
como relíquias, tesouros humanos, e compartilhava-as sempre que a oportunidade
se apresentava.
Graças
a Ronald, tive a honra de conhecer pessoas magníficas, tais como: Emília
Correia Lima, o arcebispo Dom José Maria Pires, o reitor Neroaldo Pontes, o
ex-governador Pedro Gondim, dentre outros.
No
campo institucional, fui apresentado ao presidente Marcos Lins, que inclusive a
partir de então, a superintendência do INCRA na Paraíba passou a ser
prestigiada.
Aprendi muito
com Ronald. Sua morte transcende os limites dos sentimentos, e impõe nesse
momento de reflexão do mais desesperador deles, a sensação de orfandade que a
sua ausência nos impõe.
Seu
desaparecimento não somente enlutou a sua família, mas também a todos os que de
uma forma ou de outra, direta ou indiretamente conviveram com esse ser humano
de inigualável leveza de espírito.
Amizade
mesmo nascera após sua saída do INCRA. Minhas amizades nascem assim.
Quando na
casa civil do Governo da Solidariedade, pude perceber que aquela função tava
revestida de uma missão, de dotar a ação da casa civil num instrumento de
transformação de gestão.
Ronald
encarnava a determinação de Mariz de assim proceder enquanto agente de governo
a serviço da inteligência do pensar ético da coisa pública.
Não
faltaram as críticas oportunistas, daqueles que sempre se serviam das benesses
do poder em forma de filantropia deturpada. Ronald soube como ninguém, despojado
que era de vaidades, interpretar as diretrizes traçadas pelo amigo pessoal,
governador Antonio Mariz.
Recordo-me
lá no INCRA, quando Ronald coordenava o plano de governo, ele me falara que o
então candidato eleito Antonio Mariz pedira-lhe para escolher entre a Casa
Civil e o Planejamento, embora tivesse uma preferência para que ele assumisse a
Casa Civil.
Hoje, ao
escrever esse artigo, compreendo a dimensão inteligente daquela “preferência”
de Mariz.
Os dias
atuais, os fatos envolvendo a política nacional, os escândalos sucessivos, que
denigrem e fragilizam as instituições falam por si só.
Ao
contrário do que pensam algumas pessoas, a Paraíba não ficou a dever nada a
Ronald, mas sim, alguns governantes, de ontem e de hoje. Esses sim, ficaram o
que poderíamos afirmar: inadimplentes moralmente para com esse paraibano,
sinônimo de caráter, dignidade e de competência.
(*) Servidor de carreira e ex-superintendente
do INCRA PARAÍBA
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